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Entrevista - Correio Braziliense 
12/07/2010

>> EU SOU VOCÊ AMANHÃ // ADMINISTRAÇÃO

Dupla dinâmica

Administradores e técnicos em gestão são formados para atuar nos setores estratégicos de empresas dos mais diversos segmentos. Logística e recursos humanos estão entre as especialidades em alta

A profissão das profissões. É assim que Carlos Alberto Ferreira Júnior, presidente do Conselho Regional de Administração do Distrito Federal, define a atividade de administrador. “As pessoas muitas vezes acreditam que a administração é um fim em si mesmo, mas, na verdade, é um instrumento ou um meio de se atingir os objetivos organizacionais”, explica. Mas a condição tem lá os seus problemas. Um dos principais é o exercício da atividade por quem não é formado na área. O recente registro dos tecnólogos em gestão pelo conselho vem como uma tentativa de resolver o impasse. Em entrevista ao estudante Sidney Castro da Silva, Carlos Alberto falou sobre esse e outros desafios da área, além de dar dicas para os iniciantes. Confira trechos da conversa.

SIDNEY CASTRO DA SILVA — Eu realmente fiz a escolha certa ao optar por administração?
CARLOS ALBERTO FERREIRA JÚNIOR — Com certeza. Afinal, o curso é o mais completo e abrangente de todas as profissões que a gente conhece. As pessoas muitas vezes acreditam que a administração é um fim em si mesmo, mas, na verdade, é um instrumento ou um meio de se atingir os objetivos organizacionais. Para mim, essa é a profissão das profissões, pois o empreendimento bom, seja ele em qualquer segmento, quando começa a crescer, a se tornar complexo, a se desenvolver, precisa de gestão e de administração. Aí, nós entramos.

SIDNEY — Qual a melhor área para se especializar?
CARLOS ALBERTO — Gestão de recursos humanos é muito procurada. É da natureza humana se relacionar. Então, quando você começa a assumir funções de gerência ou vira dono de empresa, você precisa lidar com pessoas todos os dias. Para isso, é preciso estudar. Afinal, nem todas as pessoas têm facilidade no trato com as demais. Gestão de marketing é outra área quente no mercado. Afinal, o dito popular “a propaganda é a alma do negócio” ainda está na moda.

SIDNEY — E quanto à área de logística? Percebo que existe muita perda de produtos pela falta de eficiência nesse setor. Ele também seria um bom campo para os administradores?
CARLOS ALBERTO — A questão da logística é um campo privativo da ciência da administração, agora altamente aquecido e procurado no mercado. O motivo é simples: o comércio e a economia estão crescendo e se desenvolvendo e, em função disso, é preciso pensar melhor na questão da distribuição e da logística. Ainda há um novo componente, que é a questão das vendas pela internet. No modelo antigo de distribuição e logística, o caminhão tinha que entregar a peça no tempo certo. Isso ainda é válido, claro, mas hoje o desafio é a pessoa acessar a internet e demandar determinado produto, que precisa ser produzido e entregue na casa do cliente no prazo compromissado. Por isso, a logística, hoje, é uma questão essencial para a sobrevivência e sucesso de uma empresa.

SIDNEY — O registro dos tecnólogos no conselho regulamenta várias profissões. Isso não tira o mercado do administrador?
CARLOS ALBERTO — Precisamos deixar essa questão bem clara. O registro dos tecnólogos é de extrema importância. Os conselhos regionais e o federal regulamentam uma situação que existe no mercado. O tecnólogo é uma novidade que o mercado exige. E contra as leis do mercado não há o que se discutir. Por isso, as faculdades começaram a proliferar os cursos de tecnologia, que têm menos duração e não deixam de ser um ensino superior na ciência da administração, sendo que tecnólogos e administradores atuam cada um em seu canto. Com a regulamentação e o registro também dos tecnólogos, é possível que haja uma ordem no mercado, pois esses profissionais estavam sendo lotados em funções de administradores. Isso não pode acontecer, pois eles não estudaram nem tiveram conhecimentos adequados para isso. Às vezes, as pessoas polemizam as funções, mas o administrador, com a formação de quatro anos, é um profissional com a visão sistêmica dos campos. Já o tecnólogo foca o seu conhecimento em segmentos específicos. Por isso, digo que não existe competição. Há mercado para todos os profissionais, só depende do perfil que a empresa procura.

SIDNEY — Qual deve ser a postura do recém-formado para conseguir o primeiro emprego? A experiência é fator indispensável?
CARLOS ALBERTO — Com relação à experiência, a gente tem enfatizado, nos cursos de graduação, que seja priorizada a participação dos alunos em estágios, nas incubadoras e nas empresas júnior. Esse é o momento para a pessoa se capacitar, treinar e aprender o cotidiano da profissão. Simplesmente com a graduação, sem nenhum tipo de experiência, ainda que seja em estágio, fica muito mais difícil conseguir uma boa colocação no mercado. Com relação aos requisitos, estão sendo cobradas questões atitudinais e comportamentais. Conhecimento todo mundo pode ter e virou commodity, mas atitude é o que o mercado está buscando.

SIDNEY — O administrador deve ser especialista ou generalista?
CARLOS ALBERTO — Depende da função que ele exerce. Se é a primeira porta de entrada em uma organização, naturalmente será importante que seja especialista em alguma coisa. Então, se você vai ser admitido em uma empresa, ela vai te contratar para trabalhar como analista ou auxiliar de recursos humanos porque você é formado em administração. Mas para eu contratar uma pessoa para ser gerente, ter um cargo de comando e liderança dentro da empresa, é bom que ela seja mais generalista. Ela tem que entender que as finanças têm relação com a área de recursos humanos, com as vendas, com a área comercial. Aí, não basta ser apenas especialista, é bom ter experiência, ter o conhecimento de todas as área de negócio daquela organização.

SIDNEY — No seu ponto de vista, qual área é a mais promissora: a pública ou a privada?
CARLOS ALBERTO — Eu digo sempre que a possibilidade de crescimento de uma pessoa dentro de uma organização depende do perfil dela. Hoje, no Distrito Federal, temos essa característica de que público e privado são grandes oportunidades de negócio. Em outros estados, provavelmente a empresa privada é mais forte. Mas a possibilidade de você vencer em qualquer uma dessas áreas, só depende de você. É você quem vai fazer o seu trabalho, o seu salário, dizer como vai produzir as coisas. Está nas suas mãos esse controle, não nas mãos de outras pessoas.

SIDNEY — Quais os maiores desafios do administrador hoje?
CARLOS ALBERTO — Colocar a sua importância para a sociedade, a valorização do seu papel. A administração é senso comum: dizem que de médico, de louco e de administrador todo mundo tem um pouco. Quando você levanta, já toma uma decisão, planeja, hierarquiza, pensa no que vai fazer primeiro, organiza sua agenda e, com isso, intuitivamente a pessoa pensa que, por saber administrar a própria vida, a família, o tempo, ela sabe administrar uma empresa, o que não é verdade. A administração profissional organizacional é tarefa para um administrador ou tecnólogo em gestão. O Sebrae mostra que, de cada 100 empresas abertas no país, em cinco anos, 40% delas estão fechadas. E isso acontece justamente pela falta de gestão e de administração. A pessoa entende de cortar cabelo, mas quando a empresa começa a crescer, é preciso controlar estoque, almoxarifado, fazer fluxo de caixa, administrar recursos humanos e tributos, fazer marketing e inúmeras outras coisas que ela sozinha não dá conta. Então, é importante diferenciar a figura do empresário da do empreendedor no país.

SIDNEY — Qual é a importância do registro dos recém-formados
no conselho?
CARLOS ALBERTO — Além de ser uma determinação legal, é uma necessidade para o crescimento da profissão. A palavra corporativismo já foi interpretada de forma pejorativa, como uma coisa fechada. Mas, na verdade, o objetivo do corporativismo é fortalecer e valorizar a profissão. Então, o registro é essencial para isso. Como quase todo mundo se entende administrador, é preciso que os administradores profissionais mostrem, de verdade, que o serviço público e as empresas privadas precisam de administração profissional. No dia em que os órgãos públicos e as empresas entenderem que as posições estratégicas da organização — como recursos humanos, finanças, controle, auditoria e marketing —, precisam de administradores e tecnólogos, as coisas vão funcionar. Mas o problema é que hoje são criados cargos cada vez mais genéricos, que englobam todas as profissões. Como em concursos públicos que abrem cargos de analistas administrativos, mas até biólogos podem participar. Quando se entrega atividades de administração a profissionais de outras áreas, as coisas ficam mal geridas.

SIDNEY — O senhor acha que as faculdades estão preparando bem os alunos para o mercado?
CARLOS ALBERTO — É importante que se diga o seguinte: foi assinado um termo de colaboração entre o Conselho Federal, os conselhos regionais e o Ministério da Educação (MEC) para permitir que os conselhos possam avaliar a qualidade de ensino nos cursos de administração. Professores e coordenadores de curso estão sendo capacitados por nós para fazerem essa avaliação. Muitos comentam que existem muitas faculdades de administração no país, mas a conclusão a que chegamos é que faltam profissionais. Por isso, precisamos verificar a qualidade de ensino que as instituições estão oferecendo aos estudantes. Recomendaremos, inclusive, fechamento ou abertura de cursos no DF para garantir que o mercado receba profissionais qualificados. Mas vale lembrar o seguinte: não é a faculdade que vai fazer de você um bom profissional. É você que vai se fazer, dependendo apenas do grau de dedicação que dará aos estudos. No Brasil, de cada cinco estudantes de ensino superior, um é da área de gestão de administração. Precisamos mostrar essa força para o mercado.


Perfil

Nome
Carlos Alberto Ferreira Júnior

Idade
45 anos

O que faz
Presidente do Conselho Regional de Administração do Distrito Federal, assessor da Superintendência Federal de Agricultura no DF e diretor da Associação Brasileira de Recursos Humanos do DF

Planos
Continuar ajudando no crescimento da profissão e na melhora da imagem do administrador

Nome
Sidney Castro da Silva

Idade
21 anos

O que faz
Cursa o 6° semestre de administração na Faculdade Evangélica de Brasília

Planos
Ingressar no quadro de oficial do Exército ou da Polícia Militar


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